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Arcano vai oferecer enoturismo ecológico


Com proposta de integração dos vinhedos à natureza, visitação deve começar ainda neste ano

Redação Brinde-SE 11/07/2022


A Vinícola Arcano, em Franca (SP), planeja começar a receber visitantes no segundo semestre deste ano, em uma nova etapa de um amplo projeto de enoturismo ecológico que pretende unir ainda mais vinho e natureza, potencializando ambos.


A reportagem do Brinde-SE visitou a vinícola no fim de junho. Sob forte sol e um belíssimo céu azul, foi recebida por Mauricio Orlov, que, junto com seu sócio Fernando Bizanha, comanda a Arcano desde os primeiros passos da empreitada, em 2014, com pesquisas e buscas de informações sobre a vitivinicultura. Em 2016, foi feito o primeiro plantio.


Foram mais de duas horas de papo em meio a parreiras carregadas de uva em fase final de maturação, muito verde e companhia de animais nativos. Os vinhedos principais estão a 20 km de Franca, pela Rodovia João Traficante, em direção à cidade mineira de Ibiraci. A propriedade é recheada de atrativos naturais que vêm sendo mantidos e valorizados pela vinícola desde a sua aquisição. De um total de 35 hectares, 25 são preenchidos por vegetação original. “Não temos intenção de derrubar uma árvore sequer. Vamos continuar integrando toda essa mata à nossa atividade”, revela Orlov.


O respeito ao ecossistema que cerca as parreiras não é empecilho para os planos de expansão. Dos 10 hectares destinados ao cultivo das uvas, 5,5 estão ocupados com vinhas de syrah, cabernet franc e cabernet sauvignon. Três outros devem receber novas mudas em breve. Para isso, cinco castas estão sendo testadas: alvarinho, tannat, tempranillo, touriga nacional e verdelho. “Ainda é cedo pra dizer, mas a tannat está se desenvolvendo muito bem”, deixa escapar Orlov.


E não será espanto se, nos próximos anos, a Arcano lançar um rótulo orgânico. Questionado sobre qual seria a uva branca a ser acrescentada ao portfólio, o vinicultor confidencia a possibilidade. “Não é algo assim tão distante para nós. Já temos o manejo ecológico, o adubo verde, uma política rígida de mínima intervenção. Temos pesquisado as variedades piwi (mais resistentes a doenças) e é algo que pode acontecer sim”.


As revelações não param por aí. O paulistano que se mudou pra Franca em 1994 conta que, após a colheita deste ano, prevista para os próximos dias, a experiência agradável de conhecer a Arcano vai poder ser vivenciada por todos. A vinícola quer oferecer um tour pelos vinhedos, com direito a muita história e integração com a natureza.


Além das parreiras, estrelas obrigatórias de qualquer passeio do tipo, destaque para o momento de apreciar a vista do belíssimo vale compreendido parcialmente pelas terras da vinícola. Um deck por sobre a borda do desfiladeiro vai tornar a visão ainda mais espetacular, com o vão em primeiro plano, formações rochosas em segundo plano e a linha do horizonte ocupada pela distante paisagem urbana ao fundo de tudo. Outro ponto de diferenciação deve ser o encerramento da visita, que vai ocorrer em meio à mata, com degustação dos rótulos debaixo das árvores. “É a nossa maneira de ser, de cuidar, de cultivar”, define o proprietário.


Parreiras estão à beira de um belíssimo vale, que deve ser mais uma atração do tour da Arcano

Enoecoturismo Conforme os detalhes sobre o trabalho da Arcano vão aparecendo, é fácil perceber que a proposta de envolver vinho e natureza realmente é verdadeira. Às margens do vinhedo, vê-se uma série de árvores frutíferas. “Já plantamos centenas de mudas e ainda vamos plantar muitas mais. São pés de mamão, abacate, manga, laranja, limão, jabuticaba, banana, acerola, pitanga, caqui, por aí vai. Isso aumenta a oferta de comida para os animais da mata. E a gente planeja integrar uma boa parte dessas frutas no menu de harmonização da degustação da visitação”, revela Orlov.


A caminhada segue e uma nova área, adquirida recentemente, se abre. Dá pra ouvir o barulho da cachoeira que fica na ponta direita do vale. De quebra, é possível ainda vislumbrar uma distante gruta, encravada nas rochas, do outro lado do vão. “Até pouco tempo, antes de adquirir as terras, não sabíamos exatamente como era essa parte. No futuro, vai ser aqui que vamos ter o nosso restaurante. Um espaço com paredes de vidro, totalmente integrado à natureza”, diz o sócio da Arcano, enquanto um macaco salta de um coqueiro e o interrompe por alguns segundos. “Talvez seja o espaço para oferecer, além da culinária local, um menu variado, assinado por um chef, o que também é algo muito agradável”, completa.


A cerca de 50 metros, uma depressão natural íngreme recorta o terreno. Nova parada. “Hoje, vinificamos em Caldas (MG) e estamos muito satisfeitos com os resultados. Mas planejamos ter a nossa própria estrutura exatamente aqui, aproveitando a gravidade no descarregamento das uvas e com uma cave estrategicamente protegida”, afirma Maurício Orlov.


Não muito distante, ele aponta uma mesa e dois bancos de madeira, com 5 metros de comprimento cada. “Tá vendo isso? Quando conseguimos abrir o matagal, nos deparamos com uma árvore caída. Segundo o antigo proprietário, fazia entre 11 e 12 anos que estava ali. Chamei um marceneiro e perguntei: ‘o que dá pra fazer com ela, amigo?’. Agora, são três mesas e seis bancos de madeira nobre, utilizados pelo pessoal que trabalha conosco e que vai servir também para acomodar os visitantes”, relata, orgulhoso.


Bancos de madeira nobre extraída de árvore reaproveitada

E foi em uma dessas mesas que o Arcano Syrah 2020 foi degustado. Não sem antes um tucano sobrevoar o brinde, como se, nada bobo, quisesse participar. Outras tantas histórias e uns goles depois, o rótulo revelou-se um tinto de personalidade, complexo, com características marcantes da casta, como especiarias e um toque de ervas. Depois de poucos minutos, evoluiu bem, perdendo um pouco da acidez, ficando ainda mais equilibrado e acentuando notas de madeira e de defumado.


No entanto, surge a dúvida: um vinho que não passa por barricas com madeira tão presente? Orlov explica. “Tínhamos um vizinho, carvoeiro, aqui do lado. O vento trazia a fumaça da queima pra cá. Agora, ele gentilmente se mudou lá pro outro lado. Mas todo mundo aposta que essa seja a razão (das notas de madeira)”.


A partir da safra de 2022, no entanto, a presença de madeira em alguns rótulos da vinícola não vai ser motivo de surpresa. “Desde 2018, a ideia era não alterar e descobrir o que o terroir da Alta Mogiana tinha pra entregar. A partir de agora, que a gente tem certeza da qualidade do vinho obtido, é hora de fazer umas intervenções, que o mercado gosta, né? (risos) Usar uma barriquinha francesa, uma barrica americana, fazer testes com uma ou duas barricas de madeira brasileira”, antecipa o vinicultor.


O ano de 2022 vai marcar ainda o início da comercialização de um novo rótulo, que passa a fazer companhia ao Arcano Syrah e ao Arcano Rosé no catálogo da vinícola: um corte de cabernet franc (70%) e cabernet sauvignon (30%). Serão apenas 400 garrafas a partir das uvas colhidas em 2021. Houve a preocupação em evitar a presença marcante da pirazina, que pode ocorrer nas colheitas iniciais das variedades cabernets. Para isso, foi feita uma desfolha mais intensa nas parreiras, que reduziu a pirazina, mas também fez cair um pouco a produtividade das vinhas.


“O vinho ficou muito bom, ficou intenso e encorpado. Está descansando em garrafa e logo chega ao mercado. A safra deste ano deve aumentar um pouco a quantidade de garrafas, mantendo mais ou menos a mesma proporção do corte, com 70% de franc e 30% de sauvignon. Portanto, predomina a cabernet franc, que é uma uva mais aromática, mais elegante, com nuances mais delicadas. E ele tem a força e o tanino controlados de uma cabernet sauvignon. A gente está vendo esse rótulo com um futuro bem promissor a partir das próximas safras”, diz Orlov.


Uvas em maturação, Mauricio Orlov e adubo verde (leguminosa Crotalária) entre as vinhas

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